O novo cenário dos Créditos de Carbono

O mercado de créditos de carbono (tCO2e) foi primeiramente desenvolvido pela Organização das Nações Unidas [ONU], na ocasião da Eco 92, através do Protocolo de Quioto. Através dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo [MDL], que são projetos que atendem uma série de pré-requisitos e têm o objetivo de reduzir as emissões de Gases do Efeito Estufa [GEE] originadas de atividades antrópicas. Para isso, os MDL atuam basicamente em dois perfis:

(a) Novas tecnologias para evitar/reduzir emissões de GEE;

(b) Florestamento e reflorestamento para absorção de CO2.

Após um processo de auditoria, estes projetos adquirem as Reduções Certificadas de Emissões [RCE] referentes à sua contribuição verificada. Por fim, essas RCE’s são vendidas para aquelas indústrias que não conseguiram atingir as metas de redução estabelecidas legalmente.

A partir disso a ONU determinou que o CO2 [principal gás do efeito estufa pela abundancia] seria a referência de valoração do sistema e que os outros GEE’s conhecidos seriam tratados comparando seu potencial de periculosidade com o do CO2, o que resultou na tabela de equivalência abaixo. Por exemplo, uma tonelada de Metano [CH4], gás relativamente comum, equivale a 21 toneladas de CO2. Criou-se assim a unidade de medida para certificações de créditos de Carbono, a CO2e [Dióxido de Carbono Equivalente].

Ao longo dos anos foi surgindo uma ampla diversidade de mercados além do que foi criado pela ONU. A União Europeia, por exemplo, tem seu próprio sistema de compensação, porém restrito aos países membros. Existem também os Mercados Voluntários que, como o nome sugere, são iniciativas de certificação e comercialização de créditos de Carbono paralelas e independentes da ONU. São elas que realmente estão mantendo o fôlego do mercado e garantindo que os produtores e compradores de RCE’s estejam preparados para os cenários futuros positivos, apesar do atual cenário de relativa estagnação. É o que explica o relatório Estado dos Mercados Voluntários de Carbono, publicado em maio deste ano pela Ecosystem Marketplace, uma iniciativa da organização sem fins lucrativos Forest Trends, líder global na produção de informação ambiental para finanças, mercados e pagamentos de serviços ecossistêmicos.

O Relatório

Todos os anos, desde 2006, a Forest Trends Ecosystem Marketplace distribui questionários para toda uma rede de desenvolvedores de projetos, investidores, revendedores e corretores para coletar informações sobre as transações do ano anterior, os dados incluem tipo de projeto, montante vendido, localização e padrão. Os entrevistados são divididos em dois grupos:

  • Mercado Primário – Formado pelas transações entre os desenvolvedores dos projetos e intermediários ou direto ao comprador final. Este é o que realmente impacta nas emissões de GEE’s.
  • Mercado Secundário – Formado pelas transações entre intermediários ou dos intermediários para os compradores finais.

O resultado deste esforço é um documento riquíssimo de dados e informações para aqueles que acreditam nos Créditos de Carbono como a solução global mais significativa para reduzir a participação humana na emissão de poluentes atmosféricos. Em linhas gerais, o conteúdo da edição 2017 mostra um mercado relativamente estável e ainda desconfiado, apontando, apesar de tudo, um novo horizonte positivo, que surge a partir da iniciativa de cidadãos, corporações e lideranças subnacionais que investem em energia renovável, tecnologias de eficiência energética, etc. Trazemos aqui um resumo das principais descobertas contidas no documento:

Preços altamente variáveis

O preço de uma unidade de CO2e apresenta altissima variabilidade. Os valores se estenderam entre $0.50 e $50.00 por tonelada de CO2e. O que influencia estes números é principalmente a localização e o tipo de projeto gerador, sendo os créditos provenientes de reflorestamento/florestamento na África os mais valiosos, por exemplo.

$3.0 é o valor médio global da tonelada de CO2

Perda de Volume

Apesar dos preços acessíveis, o volume do mercado caiu (24%) depois de subir por três anos consecutivos. Foram 63.4 milhões de toneladas, comparadas com as 84.1 comercializadas em 2015, renendo cerca de 190 milhões de dólares.

Movimento no mercado secundário

Apesar das transações terem caído de uma forma geral, é importante notar que houve o crescimento do volume de transações envolvendo o mercado secundário. Algo que pode indicar que revendedores, investidores e corretores estejam se preparando para a esperada recuperação do mercado a partir de 2018.

Influência dos EUA

Mesmo nunca tendo historicamente efetivamente se comprometido com a redução das emissões de GEE’s, o posicionamento da atual presidência deixou o futuro das políticas de redução das emissões dos EUA em xeque. Consequentemente, muitos dos players se mostraram desconfiados para projeções de longo prazo.

Esperança que vem da aviação

Organização da Aviação Civil Internacional [OACI] reconheceu que a adoção de combustíveis renováveis para aeronaves em escala global ainda não é economicamente viável e se voltou para o mercado do Carbono como uma forma das companhas aéreas atingirem as metas de redução. A OACI já lançou seu próprio mercado, o Carbon Offseting and Reduction Scheme for International Aviation [CORSIA], que está em fase de implementação, com previsão para começar a fase piloto em 2021.

Novos mercados

Através do Acordo de Paris [2015], a maioria dos países se comprometeu apresentando seus próprios planos de redução. Boa parte destes países menciona o uso de mercados de Carbono como alternativa mais viável para alcançar as metas. Assim, ou cada um cria seu mercado individualmente ou em grupos, chamados Carbon Clubs.

 Mas e o Brasil?

O governo brasileiro já se posicionou sobre a importância do incentivo a um mercado interno para que os créditos aqui gerados, aqui mesmo fossem compensados, atendendo a metas estaduais e municipais. Até o momento os incentivos avançam especificamente para o setor de produção de energia elétrica gerada por fontes alternativas, através do Projeto de Lei 2027/07.

Sete dos 163 players são Brasileiros que participaram do levantamento. Sendo 5 desenvolvedores de projetos e 2 revendedores de créditos.

Apesar do potencial, a representatividade brasileira se limitou a um modesto 5° lugar, com 3,2 milhões de toneladas de CO2e a preço médio de US$ 2.8, com rendimento total de US$ 9 milhões. Os primeiros são India, Estados Unidos, Coreia do Sul e China.

O edital público Compromisso com o Clima é praticamente a versão das empresas brasileiras de um Acordo de Paris, sem os desmandos de Donald Trump. [SORAIA YOSHIDA, Época Negócios]

Surgiram as primeiras iniciativas não-governamentais. É o caso da parceria entre Natura Itaú, que lançou plataforma Ekos Social para aproximar as empresas dos fornecedores de créditos de Carbono.

E assim caminha nossa nação. Numa velocidade que não acompanha nosso potencial, nem o ritmo do surgimentos de oportunidades globais de crescimento sustentável e ameaçada pelo retrocesso. Felizmente, o acesso à informação nos permite contornar esse obstáculo.

 

Fonte: Diogo Araújo

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