Energias renováveis estão a ser desaproveitadas

O mercado das energias renováveis está a ser desaproveitado quando as vantagens são muitas não só para o consumidor final como para o Estado que poderia poupar na compra de combustíveis fosseis. Quem o diz é Luís Teixeira, PCA do Centro de Energias Renováveis e Manutenção Industrial (CERMI) nesta entrevista ao Expresso das Ilhas. Mas há outros problemas que afectam a produção e distribuição de energia: as perdas por falhas técnicas e roubo de electricidade superam aquilo que se produz recorrendo às renováveis.

O mercado das energias renováveis, em Cabo Verde, é, pode dizer-se, um mercado desaproveitado?

Pelo potencial que temos e pela necessidade que temos de ter novas formas de energia, eu acho que sim. Só para ter uma ideia, nós temos um potencial enorme de energia solar fotovoltaica e solar térmica. Há estudos que falam que Cabo Verde tem mais de 2.600 Megawatts de potencial de energia. Neste momento, já foram identificados mais de 600 Megawatts e temos um potencial enorme a nível da solar térmica e fotovoltaica, mas também na área eólica. Entretanto, há alguns desafios que ainda enfrentamos como a questão do limite técnico, porque nós temos o potencial, mas as tecnologias de produção à base de energias renováveis têm este handicap que é as redes não suportarem acima de determinados valores. Ou seja, precisamos de sistemas de armazenamento e precisamos de sistemas que suportem injecções de energia cada vez maiores. Para isso, temos de resolver a questão das flutuações tanto na parte da tensão como da frequência. Aqui o desafio é arranjar soluções que nos permitam ultrapassar esta barreira psicológica dos 30% de taxa de penetração de energias renováveis. Hoje podíamos ter mais do que o valor que temos hoje. Relatórios da Electra falam em 18,9% de taxa de penetração, já tivemos valores mais elevados mas nos últimos tempos não tem havido novos projectos de grande escala que permitiriam que hoje estivéssemos com 25 ou 30% [de taxa de penetração]. Já estivemos com técnicos e consultores que disseram que podíamos ter mais penetração sem sistemas de armazenamento e de controlo de flutuações. Por isso, sim, penso que podemos estar a subaproveitar quando podíamos estar a aproveitar mais. Mas não é só na produção de electricidade. Repare, nós temos um problema de limite de integração na rede, mas podemos desviar para outras áreas: carros eléctricos, por exemplo. Podemos potenciar cada vez mais esta fonte, este potencial que temos e neste momento estamos a subaproveitar.

Esses 2.600 Megawatts significariam quanto da produção total de energia?

Só para ter uma ideia, Cabo Verde tem hoje cerca de 150 Megawatts de potência instalada, isto na área da produção de electricidade, portanto, esses 2.600 Megawatts dariam para abastecer Cabo Verde várias vezes. O último estudo que temos, que já carece de alguma actualização, fala em cerca de 650 Megawatts de zonas já identificadas não só nas áreas de eólicas e solares, mas também em sistemas de aproveitamento de resíduos sólidos, energia geotérmica e outras áreas. Estamos a falar de uma potência que daria para cobrir o país a 100%. Neste momento, no entanto, o problema não é no potencial mas na tecnologia que nos permite ter toda essa energia para produção de electricidade. A rede, infelizmente, não permite.

Mas o negócio das renováveis é um negócio caro e que demora a rentabilizar…

Não. Já foi mais caro. Para ter uma ideia repare que hoje já falamos em custo de capital… o capex médio de PV, que é o solar fotovoltaico, está em 1,2 milhões de dólares por megawatts e no eólico está em 1,6 milhões por megawatt. E há outro aspecto importante, a tecnologia evoluiu muito. Se em 2010 as células, que é todo o sistema de mecanismo que transforma o sol em electricidade, tinha uma eficiência de 17,5%, em 2015, já estamos a falar de uma eficiência de 19,8%. Outro exemplo, o factor de capacidade, que mede a percentagem de electricidade que um parque eólico produz relativamente ao que teoricamente devia produzir, evoluiu de 12% em 1997 para 25% em 2015. E este valor varia porque há localidades em que este valor pode ser um bocadinho mais alto. Ou seja, a tecnologia está a aproveitar cada vez mais esta energia natural e o custo baixou, o que torna o investimento mais rentável e com menos risco. É claro que um dos desafios que ainda enfrentamos é a questão do financiamento destes projectos, mas hoje está cada vez mais rentável e atractivo.

Temos estado a falar do aproveitamento da energia solar quer fotovoltaica quer térmica. Mas há pouco referiu a potencialidade da energia geotérmica. Compensaria, a um país como Cabo Verde, investir na energia geotérmica?

Tem de ser analisado em várias vertentes, porque às vezes nós não podemos ter sistemas que tenham retorno imediato. Depois há a questão da investigação. Nós temos de estudar, temos de conhecer, de fazer o despiste do que nós temos. E, aliás, o Programa do governo para esta legislatura fala em explorar, fazer estudos, fazer investigação para conhecer melhor o nosso potencial não só na área da geotérmica mas também na área dos oceanos, porque temos um vasto mar e temos potencial, não só através das ondas mas também através do diferencial térmico. Mas temos de estudar. Há sistemas que já estão prontos para serem usados numa vertente mais comercial e há outros que precisam de ser investigados. Nós temos universidades que querem fazer esses estudos. É importante que conheçamos o nosso potencial e ver se, de facto, ele existe. O estudo identificou um potencial na área geotérmica na ilha do Fogo, por exemplo.

Falar de energias renováveis é falar de consciência ambiental. Os cabo-verdianos têm essa consciência?

Eu acho que qualquer projecto deve ter uma preocupação ambiental. Mas o cabo-verdiano o que quer é energia barata. Depois quer energia de qualidade. Mas a primeira coisa é o preço, depois vem a qualidade e só depois é que vem a questão ambiental. Temos de ser pragmáticos. Aqui a questão… se for possível combinar uma tecnologia limpa e amiga do ambiente, óptimo, mas o cabo-verdiano quer é ter energia em casa. Aí eu acho que temos de fazer um trabalho pedagógico. Mas a grande maioria quer ter uma energia que seja segura e de qualidade, ou seja, quando liga o interruptor a luz acenda, depois quer o preço e finalmente, se a energia vier de uma fonte amiga do ambiente melhor. Eu acho que os cabo-verdianos têm esta consciência, mas não é prioridade.

Quanto aos preços. Uma maior exploração das energias renováveis significaria uma diminuição do preço? Há alguma indicação de quanto poderia baixar o preço da energia em Cabo Verde?

Estão a ser terminados alguns documentos sobre o sector energético que vão dar resposta a estas questões. Mas o Programa de governo diz que sim, que vamos apostar em projectos que sejam técnica e economicamente viáveis. Primeiro temos de garantir que é tecnicamente viável e depois que tem impacto económico. Nós acreditamos que o solar fotovoltaico poderá ter impacto na redução do preço, basta ver os valores do investimento nessa área. Depois temos de ver isto a longo prazo, repare que hoje o petróleo está a 50 dólares cada barril mas já esteve a 150. Claro que aqui temos uma fonte que é gratuita e hoje a tecnologia tem um rendimento muito elevado, o custo de capital está cada vez mais baixo e todos os dados indicam que sim que poderá haver impacto. Mas o governo vai investir em projectos que tenham essas duas vertentes, a parte técnica e económica que se traduza na redução do preço. E nós acreditamos que as energias renováveis vão ter esse impacto.

Há espaço, mercado, para a produção caseira de energia, para a micro-geração?

Há. Cabo Verde tem condições para isso. Já temos uma lei, a Lei 1 de 2011 que fala em três regimes de produção de electricidade através de fontes de energias renováveis: os grandes produtores, a micro-geração e o abastecimento de zonas remotas e fora da rede. Em Cabo Verde temos um problema, temos boas leis mas temos dificuldades em aplicar, em operacionalizar essas leis. Esta lei tem algumas lacunas mas ainda não foi testada o suficiente. Ainda não há dados concretos mas em encontros que tivemos com algumas entidades, como a Direcção Nacional de Energia, fazem-nos acreditar que existe mais de 1 Megawatt de potência instalada na casa das pessoas. Estamos a falar de um número razoável que podia ser maior, mas um dos entraves é a dificuldade que as pessoas têm em armazenar na rede, ou seja, injectar na rede e depois ir buscar quando precisa. Há muitas pessoas que têm em casa mas não injectam na rede. A lei fala nisto, mas neste momento ainda não está operacionalizado. Cabo Verde tem condições, já temos leis mas temos de ver algumas coisas com a operadora-concessionária que também tem de saber gerir esses sistemas. A questão do preço é outro ponto, porque neste momento a lei permite um sistema de acerto de contas entre a concessionária e o cliente e aqui surge a questão do preço. Se é 1 por 1, ou seja, se eu injectar 100 kWh vou reduzir 100 no meu consumo ou não? Temos de rever essa questão, mas a micro-geração é muito importante, tanto para o concessionário como para os consumidores e é uma das formas de reduzir a nossa factura e contribuir para que tenhamos cada vez mais taxa de penetração de energias renováveis na rede.

No meio disto tudo, deste mercado das energias renováveis, qual é o papel do CERMI?

O CERMI é um projecto que arrancou em 2015, é uma empresa pública que foi criada com o objectivo principal de garantir a transferência de conhecimentos, o desenvolvimento de competências através da formação profissional. Mas não só. O CERMI pode também prestar serviços ao nível da manutenção de parques solares, pode e deve fazer a incubação da investigação. Mas o CERMI foi também criado para ser um braço operacional do governo, de operacionalizar políticas públicas, por isso é que tem uma função de fiscalização e de certificação. Nós podemos fiscalizar sistemas de energias renováveis, podemos certificar sistemas, profissionais, materiais que entram no mercado. Tudo isto é um papel que o CERMI tem no seu estatuto. Já começamos a fazer alguma coisa, a primeira área que conseguimos operacionalizar é a formação profissional, mas neste momento já estamos a prestar serviços, nós é que estamos a fazer a manutenção do parque solar do Estado. Este parque solar [junto à central do Palmarejo, Praia] é o CERMI que faz a manutenção. A ideia é que o CERMI não faça isto só numa perspectiva de prestação de serviço e geração de receita, mas integrar isto na cadeia de formação, do estágio, da incubação. Os nossos formandos vão ali ter aulas práticas. Há muita coisa que estamos a operacionalizar, coisas que estão nos estatutos mas que ainda não saíram do papel. Neste momento estamos a negociar com o governo algumas competências que serão transferidas, por exemplo, na questão da inspecção das instalações eléctricas e outros. Mas nós não nos queremos focar em muita coisa apenas no que o estatuto nos dá em termos de competências e aqui o CERMI também deve ter um papel de promotor, de impulsionador de boas práticas. Deve deixar o mercado funcionar sem ser um competidor do sector privado, deve trabalhar em complementaridade com o sector privado. Há áreas em que o CERMI não deve intervir.

Quais?

Por exemplo, surge um projecto de instalação de um pequeno parque para instalação de um sistema de irrigação ou de bombagem de água, nós achamos que há empresas que podem fazer isto funcionando o CERMI como um fiscalizador, como um garante de que este projecto irá correr da melhor forma. Não só o projecto mas depois a manutenção. O CERMI deve também fazer esta ponte para que toda a parte de formação intervenha, porque às vezes temos necessidade que os nossos estudantes participem desde a fase da formação. O CERMI deve ter esse papel de levar a formação e a investigação para esses projectos. Mas quem o deve fazer [instalar os projectos] deve ser o sector privado e temos aqui empresas que o podem fazer. Mas o CERMI tem também o papel de sensibilizar, de informar, de produzir estudos e dados para o sector.

O sector privado tem-se queixado que o Estado acaba por funcionar como concorrente. Isso estava a acontecer com o CERMI?

Não. O CERMI tem dois anos, por isso, se calhar não houve tempo de isso acontecer. Mas nós como vamos começar a intervir em várias áreas, podemos ser tentados a fazer isso. Mas nós temos orientações do governo e mesmo dentro da nossa estratégia prevemos ter um CERMI parceiro e não um CERMI concorrente do sector privado. Nós achamos que cada vez mais o governo quer que o investimento que antes era feito pelo público passe a ser feito pelo privado. E o CERMI quer ser parceiro. Por exemplo, nós temos um projecto na Brava de que somos parceiros do empresário e cuja ideia do projecto é fazer da Brava uma ilha 100% renovável e ali o CERMI vai garantir a transferência de conhecimento. Vamos ter formação aqui, o CERMI vai participar no projecto, vai garantir que no futuro que os investidores não se vão embora, depois de finalizados os projectos, sem deixarem ficar cá o conhecimento, porque depois quando temos um problema de manutenção temos de recorrer a esse fornecedor. Queremos que o CERMI tenha esse papel de garante da transferência de conhecimento.

Voltando ao mercado das energias renováveis. Uma das principais queixas é que não se notou diferença, da aposta nas energias renováveis, no preço final da energia. O mercado tem falta de escala ou devia haver uma aposta ainda mais forte?

Temos de analisar. De facto, não houve este impacto directo nas facturas. Se pegarmos nos dois maiores projectos que foram feitos, estamos a falar de investimentos muito altos. Os contratos que foram feitos são também muito elevados. Aliás, o governo no programa para esta legislatura fala em reanalisar o contrato entre a produtora de energia eólica, a Cabeólica, que gere os parques, com a Electra. Eles têm um contrato em que vendem a energia à Electra mas nós achamos que poderá haver uma margem para negociação. Porque achamos que o preço, e isto é uma opinião pessoal, pode ser revisto. No caso do parque solar, quando foi construído era para estar a produzir cerca de 4% do total da energia que existe na rede, mas está a produzir cerca de 1,5%. Nós agora começamos a fazer a manutenção do parque e reparamos que está a trabalhar a menos de metade da sua potência. Tem alguns painéis que não tiveram cuidados que deviam ter sido definidos aquando do projecto e isso hoje está a ter impacto directo no preço, porque acho que o parque podia estar a contribuir com mais energia, mais barata e isso teria, de certeza, impacto na factura final. Mas também há outra coisa, os projectos de renováveis demoram sempre a ter retorno. Mas o maior problema não está no custo das renováveis, eu acho que o maior problema que temos hoje e que temos de resolver é a questão das perdas de electricidade na rede. Só para ter uma ideia: a energia que se perde na rede é superior à que é produzida pelas renováveis. Hoje em dia temos cerca de 107 milhões de kWh de energia perdida todos os anos. É muito e os parques eólicos e solares que existem em Cabo Verde produzem menos.

Quando fala em perdas está também a incluir a que é roubada.

Sim. Estamos a falar em perdas no geral, tanto da parte técnica como da parte comercial. Teoricamente, toda a energia que produzimos através das renováveis é deitada fora. Uma outra questão que temos de melhorar é a eficiência na produção. A Electra terá de fazer o trabalho de mudar alguns combustíveis que vão permitir a redução do preço da energia, porque nós vamos, cada vez mais, ter necessidade de um mix energético. Ou seja, uma componente renovável e outra tradicional, a diesel. E aqui temos de reduzir a componente térmica [geradores a diesel] baixando os custos de produção através de mudanças do combustível, nós usamos muito gasóleo, temos de mudar para o fuel e nos lugares onde temos o fuel leve, como em Santiago, mudar para o fuel pesado, o fuel 380.

E a combustão de resíduos sólidos? Os ganhos que se poderiam ter na produção de energia eléctrica compensam em relação à poluição?

Há experiências que mostram que sim. Mas há muitas coisas que precisamos de conhecer melhor. Há vários tipos de tecnologia, não só a queima. Mas temos de conhecer o nosso potencial e se, de facto, temos esse potencial. Porque nem todo o lixo é igual. Há lixo que tem componentes mais energéticos e outros que têm menos e aqui temos de conhecer bem o nosso potencial, que cada tipo de lixo tem. Aqui a questão ambiental é fundamental, analisar tudo isto, o ganho ambiental, o ganho económico e depois decidir. É claro que a questão do lixo tem de se resolver, mas em termos de produção de energia, hoje, já há outras tecnologias que são viáveis.

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